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Suponho que a disciplina venha da aristocracia. Qualidade respeitável, sem exageros. Os ocasionais impulsos, presumo, são frutos do lado sonhador. Deve-se manter o equilíbrio. Mas, por mais racional que seja a mente, isso não significa inflexibilidade total. Então, se não estiver fora dos limites... Quando foi a última vez que algum desejo específico sufocou e quebrou teu autocontrole por um momento?
Talvez tenha sido numa manhã em que me encontrava em São Petersburgo e havia decidido, por uma questão de prudência, não comparecer a uma determinada recepção. Não tinha qualquer obrigação de ir; pelo contrário, havia razões perfeitamente sensatas para permanecer em casa. Mas, ao preparar-me para o dia, descobri que desejava desesperadamente sair, não pela companhia, nem pela festa, mas pela sensação de voltar a ser apenas eu mesma por algumas horas, sem que cada gesto meu parecesse pertencer ao julgamento de alguém. Lembro-me de ter permanecido diante do espelho durante algum tempo, já vestida, a discutir comigo mesma como se estivesse diante de outra pessoa. Não precisas disto, Anna. Fica em casa. Há coisas mais importantes. E havia. A minha razão tinha toda a razão. Mas saí. Não foi uma grande rebelião, evidentemente. Fui à recepção, conversei, sorri quando era esperado que sorrisse e comportei-me com a compostura que me ensinaram desde criança. A pequena desobediência esteve apenas no fato de ter seguido aquele impulso em vez de obedecer à prudência. Creio que é justamente aí que a aristocracia e a disciplina podem tornar-se perigosas: quando nos ensinam tão bem a controlar cada gesto que começamos a confundir dignidade com repressão. Eu acredito em limites, e talvez mais do que a maioria. Não faria algo que ferisse deliberadamente outra pessoa apenas para satisfazer um capricho meu. Mas também não considero virtude sacrificar constantemente aquilo que somos em nome daquilo que esperam que sejamos. O meu maior impulso talvez nem sequer seja fazer algo imprudente. É, por vezes, simplesmente desaparecer por algumas horas da personagem que todos conhecem como Anna Ekaterina Karenina. E, quando esse desejo aparece, confesso que nem sempre tenho vontade de o sufocar. Há uma certa liberdade em admitir que até uma mulher disciplinada pode, ocasionalmente, fechar a porta atrás de si, abandonar por algumas horas todas as expectativas e fazer aquilo que deseja, desde que, ao regressar, ainda consiga olhar para si mesma sem vergonha.
Agora, se me permite uma curiosidade legítima: o quão importante é ter disciplina na tua visão? Exerce essa obediência em todas as áreas da vida, ou há espaço para impulsos que fogem das regras, de vez em quando?
Considero a disciplina uma forma de respeito. Não apenas pelo trabalho, mas por nós mesmos. Entretanto, desconfio de qualquer vida excessivamente organizada. As maiores decisões que tomei jamais nasceram da disciplina, nasceram de um impulso que a razão levou semanas tentando justificar. Creio que ambas tenham seu lugar. A disciplina constrói a vida que desejamos manter. Os impulsos, por vezes, revelam a vida que realmente desejávamos viver. Hoje, apenas aprendi a ser criteriosa quanto a eles. Nem todo impulso merece ser seguido. Mas alguns... mudam uma existência inteira.
Disserte sobre tua última leitura, Karenina. E então, a associe à tua leitura favorita!
Minha última leitura foi Diário do Luto, de Roland Barthes. O curioso é que não encontrei nele grandes reflexões sobre a morte, mas sobre a permanência. A forma como uma ausência continua vivendo nos pequenos hábitos me pareceu muito mais dolorosa do que qualquer despedida. Enquanto A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery... Ambos me fizeram pensar que a vida raramente muda por causa dos grandes acontecimentos. Ela muda quando aprendemos a enxergar aquilo que antes atravessávamos sem notar.
E talvez seja por isso que eu continue voltando a Barbery, as vezes.
O que mais gosta de fazer nos dias tranquilos?
Confesso que gosto de me permitir pequenos caprichos. Experimentar um perfume novo, visitar uma galeria, comprar um livro apenas porque a encadernação me pareceu irresistível ou sentar em um café por tempo suficiente para esquecer por que entrei ali. E não, não considero isso improdutivo!
Considera-se uma mulher de tradições? Em caso afirmativo, qual delas gosta mais de praticar sem falta?
Considero-me, embora não pelas razões que costumam imaginar. As tradições sempre me pareceram menos importantes do que a disciplina que exigem. Nunca inicio uma refeição importante antes que todos estejam à mesa. É um gesto pequeno, quase imperceptível, mas sempre pensei que a elegância começasse justamente nessas concessões silenciosas que fazemos ao outro. A pressa, por mais justificável que seja, raramente combina com a boa educação.
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